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O SUAS que temos e o SUAS que queremos

O Sistema Único de Assistência Social, comumente chamado de SUAS, está muito bem descrito na Lei Orgânica da Assistência Social (LOAS), na Política Nacional da Assistência Social (PNAS) e nas Normas Operacionais Básicas (NOBs). Mas a prática no cotidiano dos serviços se mostra, muitas vezes, diferente da teoria. Muitos avanços foram alcançados ao longo do tempo, mas o sistema ainda precisa de ajustes para chegar ao que queremos.

A história da Assistência Social (AS) foi marcada pela transição entre simples doadora de esmolas para a garantia do direito à proteção social de todos os cidadãos, através de um sistema único de assistência em todo o país.

Hoje contamos com um SUAS descentralizado e participativo. Além disso, possui um padrão de aplicação da política em todas as cidades do Brasil, por meio de um sistema único de comando.

Oferece serviços, programas, projetos e benefícios socioassistenciais, como o Bolsa Família, por exemplo. Dispõem de profissionais especializados, um modelo de gestão própria e se mantém através de financiamento público.

Poderíamos dizer que trata-se de um sistema perfeito, não fosse os inúmeros desafios que os trabalhadores enfrentam diariamente na gestão dos seus serviços.

Realidade do SUAS e o que precisa melhorar

Com base em uma pesquisa enviada aos clientes da Portabilis sobre os aspectos do trabalho e da gestão dos serviços na Assistência Social, fizemos uma reflexão sobre a situação que se encontram e o que poderia ser melhorado no SUAS.

Utilizando como base a NOB-RH, a Tipificação dos Serviços Socioassistenciais e a Política de Educação Permanente, analisamos aspectos como:

  • Equipe de referência
  • Território
  • Número e vínculo dos trabalhadores
  • Capacitação/formação
  • Tempo de trabalho na comunidade
  • Escolaridade dos trabalhadores
  • Práticas interdisciplinares
  • Intersetorialidade (práticas e ações da rede de serviços)

As respostas apontaram uma notória escassez de pessoas nas equipes de referência e a falta de uma equipe diversificada para atender melhor a população e dar um suporte maior aos assuntos administrativos.

Outro ponto comumente citado como deficitário no SUAS foram os mecanismos e processos para auxiliar na efetiva oferta e ampliação dos serviços aos usuários nos territórios.

Questões mais amplas e igualmente impactantes também foram levantadas, como o fato de muitos usuários ainda acreditarem que a AS é caridade, e o governo não conseguir cumprir a Constituição Federal/88 na íntegra.

Sem falar na crise financeira alarmante que está à porta, e fará com que milhares de brasileiros fiquem abaixo da linha de pobreza, segundo o Banco Mundial.

O aumento na população de idosos, migrantes e refugiados é outro ponto de atenção, pois exigirá políticas públicas específicas para o atendimento desses grupos.

Diante de tamanhas adversidades, parece que “o SUAS que queremos” soa utópico, não é mesmo?

Mas não se preocupe, pois trouxemos algumas dicas estratégicas para melhorar a gestão dos serviços do SUAS, mesmo com os poucos recursos que temos. Saiba mais a seguir.

Dicas para conseguirmos o SUAS que queremos

A gestão do SUAS poderia se aproveitar dos princípios, modelos e conceitos da ciência da Administração Moderna, você sabia?

Em empresas nascentes, especialmente na área de tecnologia, estamos acostumados a fazer mais com menos, alcançar o melhor resultado possível com os recursos que temos, ganhando eficiência e escala à medida que aprendemos a melhorar a cada ciclo. Isso está na essência do empreendedorismo moderno.

Além disso, costumamos ter um senso de propósito, uma causa que acreditamos com um foco centrado no nosso usuário de produto ou serviço.

Isso tudo parece muito com o SUAS, exceto no que se refere à escala. Não é possível compará-lo à economia da indústria, mas conseguiríamos aproveitar a busca por atender a demanda reprimida com os tamanhos limitados de equipes que temos.

Longe de nós sugerir a isenção da mobilização por investimentos, recursos e melhoria das condições de trabalho. Mas enquanto essas questões não se materializam, podemos trazer um pouco de empreendedorismo para a gestão do trabalho no SUAS.

Para isso, sugerimos 4 visões estratégicas para fazer mais pelo SUAS com os recursos que temos. São elas:

1- Liderança com visão de gestão

Estabelecer que os gestores e coordenadores tenham formação ou capacitação na área da administração. É impossível gerir recursos escassos, coordenar equipes, analisar problemas e propor soluções, monitorar e avaliar resultados, sem que estes profissionais dominem com clareza os conceitos e princípios da administração.

2- Organização de processos e fluxos de trabalho

O trabalho com usuários desenvolvido por equipes multidisciplinares que precisam operar de maneira articulada e integrada, carece da estruturação de processos e fluxos de trabalho para que seja efetivo.

Não podemos permitir que as equipes do SUAS pensem o trabalho de maneira funcional, sem compreender como o resultado de suas ações impactam no todo.

O trabalho precisa ser verdadeiramente em equipe, com uma comunicação que funcione e que garanta um trabalho para os usuários com propósito.  

3- Adoção de tecnologia para garantir efetividade

Não há como pensar em gestão, trabalho em equipe e ganho de eficiência sem tecnologia.

As equipes reduzidas e a extensão e particularidade dos territórios são questões que conseguimos resolver com tecnologia. Esta pode evitar falhas, execução de processos repetitivos e manuais, além de aumentar a qualidade dos serviços ofertados no SUAS.

Desta forma, as equipes terão mais tempo para focar no planejamento e organização dos atendimentos aos usuários, e garantir que efetivemos a intersetorialidade da política pública.

4- Orientação para resultados e não esforços

Esta visão precisa ser trazida para o cotidiano e aperfeiçoamento do trabalho no SUAS. Do que adianta fazer dezenas de visitas domiciliares semanais se não conseguirmos resolver as questões dos usuários?

Com visão de gestão, processos mais claros e adoção de tecnologia, as equipes conseguirão olhar para os resultados que querem alcançar com os usuários, e não somente para o número de atendimentos feitos para sua família.

Precisamos mudar o nosso modelo mental de “cabeça tarefeira”, parar de medir esforços, e nos orientar para o que queremos conquistar. Não podemos pensar apenas no número de procedimentos e tarefas que estão sendo feitas diariamente com os usuários.

São nos momentos de crises que mudamos e crescemos. Com novas ideias e soluções, respeitando a lógica do SUAS colocada, podemos construir o SUAS que queremos com o pouco recurso que temos.

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E aí? Qual a principal dificuldade que você percebe no cotidiano dos serviços prestados pelo SUAS? O que acha que ainda precisa melhorar? Conta para nós, será um prazer ouvi-lo!

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Tiago Giusti

Especialista em soluções para o governo nas áreas da educação e assistência social, co-fundador da startup @portabilis e apaixonado por empreendedorismo.