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O silêncio ao fim de um ano letivo

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Você, em algum momento da vida, já deve ter ido a uma escola em um dia sem aulas. Quando estudante, lembro-me de ter feito isso algumas vezes durante as férias, para resolver questões sobre a rematrícula. Os corredores vazios e o silêncio transformavam aquele em um local gritantemente diferente. Um lugar deserto, desabitado e, de certa forma, sem vida.

Muitos anos depois, vivo meu primeiro ano letivo de professora e, como boa apreciadora do silêncio, tive como primeiro desafio aprender a conviver com os ruídos de um ambiente escolar: sinal, crianças praticando esportes na quadra, apitos, professoras pedindo silêncio nas salas vizinhas, a conversa agitada na sala dos professores, as discussões acaloradas nas reuniões e as risadas, muitas risadas.

Na semana passada, já de férias, tive de ir à escola resolver questões burocráticas e, mais uma vez, tive a oportunidade de me deparar com aquele silêncio nostálgico. Não apenas o olfato é afetado, a visão fica à procura das cores do uniforme em movimento, o corpo sente a ausência de um abraço inesperado, ou de um esbarrão no corredor apertado.

Ao caminhar pela escola, me dei conta de que estava grata pelo silêncio reconfortante que as férias oferecem a nós professores, não precisamos nos sentir culpados ao admitir isso. Porém não pude deixar de refletir a respeito do que o aluno representa para a escola e de que a ausência dele torna nulo o meu trabalho enquanto educadora.

Nas duas experiências, como aluna e como professora, ao me deparar com a escola vazia, senti falta unicamente dos alunos, mas como seria uma escola feita apenas de estudantes? A relação de necessidade entre alunos e professores nem sempre é percebida no decorrer do ano letivo, quiçá de uma vida inteira. Somos complementares no processo de ensino-aprendizagem. Duas partes integrantes e não opostas, como se poderia pensar: aluno também ensina, professor também aprende. O que o seu aluno lhe ensinou este ano?

Os meus me ensinaram a sorrir, a não levar tudo tão a sério (alguns são especialistas nisso), a brincar, a ter compaixão, a mudar de ideia, a não pré-julgar, a ceder, a dar o braço a torcer, a estender a mão e me levaram a entender com qual público me identifico mais.

Ao me ler, você deve ter imaginado uma instituição escolar específica, talvez a que tenha estudado ou a que atue no momento. Às vezes, precisamos de referências visuais para libertar a nossa imaginação. Fato intrigante, afinal, a imaginação, por si só, poderia dar conta de tudo. Mas a identificação nos aproxima de quem somos e de onde viemos.

Essa instituição escolar que você imaginou pode ser uma metáfora da escola da vida, na qual somos todos aprendizes e professores. Estaríamos nós sendo alunos presentes, ou estamos vivendo no que houve de bom ou ruim no passado ou na incerteza de um futuro melhor? Os momentos de avaliar o outro são também de autoavaliação? Tenho certeza de que alguns momentos de silêncio interior nos permitirão finalizar nosso próprio conselho de classe. E o meu conselho é que você não se reprove ou aprove, mas perceba que há, em cada uma de nossas ações, um aprendizado. E, se assim for, estaremos sempre acima da média.

Estamos de férias, é hora de habitar esse silêncio do ambiente escolar com outros sons e preencher o vazio das horas com outras experiências e com outras pessoas. Espero você no próximo ano para povoarmos todas as escolas, inclusive a da vida, da qual nunca devemos tirar férias.

Boas férias! 🙂

O texto acima é de autoria de Milene Maciel, que compartilha conosco aqui suas experiências e vivências do processo de ensino-aprendizagem.

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